escolhas
eu ainda não sei bem se escolhi ou se não tive escolha
ana andrade


eu ainda não sei bem se escolhi ou se não tive escolha ao optar por trabalhar apenas para mulheres
certa vez ouvi de um psi que eu deveria focar em trabalhar com homens pois era onde estava concentrado o maior percentual de poder e consequentemente dinheiro, e pasmem ou não, aquilo fez sentido pra mim e acabei atendendo cerca de 10% de mulheres em minha trajetória por décadas com cursos, oficinas e treinamentos.
eu tinha zero letramento de gênero
zero letramento em política e corria tudo relativamente bem, só que não.
paguei um preço altíssimo por manter uma incongruência entre o que eu acreditava ser moralmente certo, o justo e o coerente com meus valores e o que eu ajudava a prosperar, às vezes amenizar e muitas vezes, precisava calar.
foram violências que vi, ouvi, presenciei, sofri e segui. muitas
até adoecer. muito
até a começar a me ouvir. baixinho
até começar a ouvir muitas vozes de mulheres sábias, que na falta absoluta, me acolheram, me ofereceram referências, novos trajetos.
tudo muito lento, tudo muito interno, tudo muito fortalecedor, de dentro pra fora e sem muita consciência externa. era tudo nas minhas entranhas.
precisei expelir, arrancar, renovar, tecer novos olhares, deixar que os brotos permanecessem protegidos do sol em excesso, da água em excesso, tudo na exata medida que eu não sabia que sabia qual era.
e foi assim que me aproximei do que me fez bem, devagar, talvez ainda avistando de longe, com certa desconfiança, mas reconhecendo o trajeto tecido por mim e por tantas.
e é assim que quero caminhar, com as manas, as minas, as flores resilientes num mundo ainda tão hostil pra nossa existência.
quero apoiar e fortalecer o que dá vida à vida, em mim, e em todas.
eu estou de volta ao processo de análise e é tão bonito ver que as fissuras que sentimos, tem profundezas que desconhecemos e que poder explorar esses lugares, nos permite levar luz e ir experimentando novas formas de olhar e sentir o jogo de luz e sombras que nos abitam e nos pertencem.
quanto mais leio e me aproximo do universo feminino, do aspecto potente e transformador que ele é em sua plenitude, mais sinto que não tenho escolha, além de fortalecer em mim o que é meu e reivindicar que ele esteja à frente do que faço cotidianamente.
